segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A dor volta a ser insuportável, de tal forma que nem a mais poderosa morfina conseguiria aplacar. Mas, afinal, como vencer essa morte lenta que já dura tanto tempo?! A resposta é simples, porém não tenho coragem para aceitá-la. Ou seria, talvez, covardia?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fragmentos de alma (I)

Os vi saindo de mansinho, magros, belos, altos, os rostos mascarados por faces bonitas. Os olhos, em sintonia com o restante do corpo, demonstravam força, garra, um poder e confiança que iam além do que um dia eu imaginei que teriam. Subestimei-os, ó, amigos; lancei sobre vocês uma inveja tal que julguei nunca vê-los levantar-se em arredia revolta contra minha opressão célere. Uso e abuso e reabuso dos adjetivos, mas é para tornar dramático algo que é tão simplório quanto uma ferida aberta no coração figurado. Mas vocês se revoltaram, amigos, rebelaram-se e amotinaram-se contra o amor invejoso que nutria por em meu peito falso; levantaram-se todos do chão, de onde me olhavam, bobos, e vestiram-se da mais pura seda de meu palácio; beberam da mais ardente bebida de minhas adegas; devoraram as mais suculentas carnes de minhas cozinhas. De Rei, de Imperador, passei a servo, a vassalo de seu descaso, de sua indiferença abismal. Caí, meio estranho, meio convicto de que merecia aquilo, meio-muito-totalmente invejoso da liberdade que vós, amigos, conquistavam perante o meu olhar atônito e sem esperanças. Eu os vi partir, mas não me lembro quando foi sua partida; eu senti a atmosfera de minha casa tornar-se pesada, letárgica, insípida

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Eu não sabia o que queria esscrever, só queria escrever. Então deixei sinais, vislumbres, guias para o que poderia acontecer. Mas não, nada vai acontecer. Eu não tenho coragem.
Se tivesse certeza da continuação, iria.
Submissão.
O brilho nos olhos foi decaindo, até tornar-se uma chama extinta de tempos de outrora.
Que tipo de homem sou eu?!
Penei. Tentei. Escrevi o último suspiro de um abandonado. Ele se foi, deixou-me, partiu-me em dois e nos abandonou para viver a liberdade que lhe concedi. Nós, eu e meu desejo de tentar, o vimos disparar colina abaixo e desaparecer na névoa angustiante que nos separa do mundo. Em minha fortaleza, no topo da inconsciência, sou forte; lá embaixo, entre as pessoas, não sei. Mas eu tentei, e penei por tentar tanto. Falhei. Não consegui. Foi apenas mais um rascunho sem vida que saiu de mim. Se escrever é um reflexo do momento, então meu momento está ruim. Vejam só vocês onde estou escrevendo! É, se aqui estou, neste deserto de frustrações, é porque a vida fora dele tem ficado insuportável.
Era só para desabafar mesmo, sem querer atrair atenções. Mudei nesse sentido, pois quero sofrer sozinho até que consiga olhar nos olhos das pessoas de novo sem sentir vergonha de mim. Não, sozinho totalmente não, mas calado em minha dor. Ninguém precisa saber que iniciei 2013 debaixo de uma crise de identidade. Eu vou sorrir, como sempre sorri. Infelizmente, dessa vez, voltarei a sorrir sem querer, só porque o mundo não tolera lamurios.

Sonhei ser grande

Escrever foi a forma que encontrei de me comunicar e de me expressar. Estou falhando nisso também. A questão, diferentemente do que eu esperava, não é falta de inspiração: é falta de vontade, de estímulo, de ânimo para continuar escrevendo.

Sonhei ser grande por meio da escrita, em conquistar pessoas, multidões, o mundo. Ah, estou terrivelmente perdido em vender 30 exemplares de um livro e ainda quero conquistar o mundo?! Bobagem, besteira, mesquinharia. Ser grande é para quem pode, é para quem tem oportunidades e condições. Eu, a vida toda, fui obrigado a priorizar coisas que não queria, coisas que nunca fui bom e/ou nunca me trouxeram alegria. As poucas "felicidades" que adquiri foi por renunciar aquilo que tentavam me impor; tive de lutar sozinho pelo pouco que tenho, pelo pouco que consegui ser. Porém estou cansado, estou cansando de ver meus braços suportarem o peso de guerrear sozinho. Não tenho mais forças. Estou desistindo de mim. Sonhei ser grande, mas nasci para ser pequeno.

Não é pra ninguém ler, ninguém rir, ninguém chorar. Não preciso que curtam ou compartilhem a minha dor, a miséria de ser um ser limitado. Já me basta eu saber isso e ver isso todos os dias quando me olho no espelho.
Sonhar custa caro quando não se tem condições de enfrentar a realidade.

O cocô do cavalo do bandido

Não se foge das origens. Quando se tenta escapar de si mesmo, o preço a pagar é muito alto, pois se retorna com força redrobrada àquilo que nunca deixamos ou deixaremos de ser. Um dia me falaram (um dia me falaram tantas coisas...) que sou melancólico. Na ocasião, discordei. Como poderia ser eu uma pessoa melancólica?! No entanto assim sou, melancólico, pra baixo, rebaixado. O cocô do cavalo do bandido... Não, por vezes sou mesmo o próprio bandido; cometo crimes contra mim mesmo. Sou cavalo, estúpido, grosseiro. Melancólico; gosto de ser cocô, de me ver por baixo, de ser pisado e ainda ter que ouvir que "dou sorte". Belo amuleto de sorte esse, não?! Ser merda, para os outros afastar, mas quando ser pisado, ouvir dos mais sábios: pisar em merda dá dinheiro. Se eu ganhasse dinheiro por cada vez que me falassem quem eu sou ou o que pensam de mim, eu já estaria rico. As pessoas acham que me conhecem, no entanto nem eu mesmo me atrevo a achar que sei quem sou. Gostaria, só por um único dia, não ser julgado, não ser colocado abaixo do cú do cachorro, como se diz. É pedir demais, é sonhar alto? É, eu sei, tudo bem, eu já deixei de sonhar mesmo; agora pouco importa o que vão me dizer.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Trecho de "O Corvo Branco"

Boa tarde!
Resolvi postar agora um trecho de outro conto do livro, esse intitulado "O Corvo Branco". Segue abaixo e espero que se interessem! 




"Pois que é necessário relatar, nestas breves horas que me separam de minha morte, como cheguei a esta posição de terrível desengano. Alguns, dentre os mais céticos, certamente destinarão a minha pessoa palavras de uma rudeza tanta que até mesmo minha alma torpe e malfadada se sentiria ofendida e tentada a considerar o choro. Mas não, deixemos o choro, as lágrimas, para um momento oportuno. Agora, de fato, necessito veementemente narrar os motivos da derrocada triste e tenebrosa de minha vida.
Há mais ou menos um ano surgiu-me a ideia de escrever um romance, cujo tema não vale a pena discorrer neste relato. O relevante é dar a informação de que durante quase um mês eu fiquei sem prosseguir no desenvolvimento do décimo segundo capítulo da obra, o que me deixava frustrado e irritado. Recordo-me perfeitamente daquele dia, daquela tarde chuvosa; meu ânimo era semelhante ao céu nublado daquele domingo: cinzento e depressivo".

domingo, 30 de setembro de 2012

"A Janela da Alma"


Começarei a partir de hoje a postar trechos dos contos que compõe o livro Fotografia Além da Moldura e Outras Histórias de Horror. O de hoje se chama "A Janela da Alma". Segue abaixo o trecho:


“Bela. Belíssima. Bendita beleza de meu bendito destino! Ela estava lá, bela como sempre fora, a se olhar no espelho de corpo inteiro da sala de estar. Eu, em frente à lareira, observava o movimento sutil de seus quadris balançando ao som da música na vitrola, enquanto ela penteava seus lindos cabelos encaracolados e sorria de um jeito esquisito para seu próprio reflexo. Sim, senhor, para o seu reflexo, jamais para mim. Pobre de mim e de meus delírios absurdos! Os olhos da senhorita Sévigné nunca se encontraram com os meus; ela fugia de meu olhar, não sei se por insegurança ou por receio do que poderia encontrar ao adentrar as janelas da minha alma. Lá estava ela, senhor, bela como a mais bela Eva neste mundo. Quanto a mim? Eu nunca poderia ser o seu Adão”.